14 junho 2022

SARAMAGO, CEM ANOS, CEM CITAÇÕES - 81

 

«Uma porta é, ao mesmo tempo, uma abertura e aquilo que a fecha. Nos romances e na vida, pessoas e personagens gastam algum do seu tempo a entrar e sair de casa ou de outros lugares. É um ato  banal, pensa-se, um movimento que não costuma merecer reparo ou registo particular. Que eu me lembre, só o mais literário dos pintores (Magritte) observou a porta e a passagem por ela com olhos surpreendidos e talvez inquietos. As portas de Magritte, abertas ou entreabertas, não garantem que do outro lado esteja ainda o que lá tínhamos deixado»

“Manual de Pintura e Caligrafia”

SARAMAGO, CEM ANOS, CEM CITAÇÕES - 82

 

«SOMOS NÓS O SOL»

Manual de Pintura e Caligrafia”

SARAMAGO, CEM ANOS, CEM CITAÇÕES - 80

 

«Tem já destino a tela que pus no cavalete. Para o retrato de M. é ainda cedo, mas o meu tempo chegou. Amadureceu a tela (…), amadureceu, se pode, o espelho (…), amadureci eu (…). Olho-me na superfície polida, ainda fechados os tubos, secos os pincéis que há semanas se cobrem de pó. Olho-me ao espelho, não distraído, não de passagem solta, mas atento, avaliando, medindo a profundidade do golpe que vou dar. Um pincel, senhores (…), um pincel é assim como um bisturi»

“Manual de Pintura e Caligrafia”

13 junho 2022

SARAMAGO, CEM ANOS, CEM CITAÇÕES - 79

 

«Lendo, fica-se a saber quase tudo, Eu também leio, Algo portanto saberás, Agora já não estou tão certa, Terás então de ler de outra maneira, Como, Não serve  a mesma para todos, cada um inventa a sua, a que lhe for própria, há quem leve a vida inteira a ler sem nunca ter conseguido ir mais além da leitura, ficam pegados à página, não percebem que as palavras são apenas pedras postas a atravessar a corrente de um rio, se estão ali é para que possamos chegar à outra margem, a outra margem é que importa.»

“A Caverna”

07 junho 2022

SARAMAGO, CEM ANOS, CEM CITAÇÕES - 78

 

«Os homens e as mulheres, estes seguirão o seu caminho, que futuro, que tempo, que destino. A vara de negrilho está verde, talvez floresça no ano que vem»

“ A Jangada de Pedra”

SARAMAGO, CEM ANOS, CEM CITAÇÕES - 77


 «Não é bom olhar para o passado. O passado é aquele armário dos esqueletos de que falam os ingleses, gente discreta, de pouco sol e ainda menos alvoroço. Mas às vezes a memória, por caminhos que nem sabemos explicar, traz para o dia que se está vivendo imagens, cores, palavras e figuras.»

 “O amola-tesouras”, in: “Deste Mundo e do Outro”

02 junho 2022

SARAMAGO, CEM ANOS, CEM CITAÇÕES - 76


«As palavras são assim, disfarçam muito, vão-se juntando umas com as outras, parece que não sabem aonde querem ir, e de repente, por causa de duas ou três, ou quatro que de repente saem, simples em si mesmas, um pronome pessoal, um advérbio, um verbo, um adjetivo, e aí temos a comoção a subir irresistível à superfície da pele e dos olhos, às vezes são os nervos que não podem aguentar mais, suportaram muito, suportaram tudo, era como se levassem uma armadura, diz-se A mulher do médico tem nervos de aço, e afinal a mulher do médico está desfeita em lágrimas por obra de um pronome pessoal, de um advérbio, de um verbo, de um adjetivo, meras categorias gramaticais, meros designativos, como o são igualmente as duas mulheres mais, as outras, pronomes indefinidos, também eles chorosos, que se abraçam à da oração completa, três graças nuas sob a chuva que cai.»

“Ensaio sobre a Cegueira”

26 maio 2022

SARAMAGO, CEM ANOS, CEM CITAÇÕES - 74

 

«Afinal, que viajar é este? Dar uma volta por esta cidade (…) e, isto feito, marcar uma cruz no mapa, meter rodas à estrada, e dizer, como o barbeiro enquanto sacode a toalha: «O senhor que se segue.» Viajar deveria ser outro concerto, estar mais e andar menos, talvez até se devesse instituir a profissão de viajante, só para gente de muita vocação, muito se engana quem julgar que seria trabalho de pequena responsabilidade, cada quilómetro não vale menos que um ano de vida.»

“Viagem a Portugal”

17 maio 2022

SARAMAGO, CEM ANOS, CEM CITAÇÕES - 73

 

«também nós, leitores, precisamos de aprender “que, por detrás desta vida desgraçada que os homens levam, há um grande ideal, uma grande esperança. Aprendi [Silvestre] que a vida de cada um de nós deve ser orientada por essa esperança e por esse ideal. E que se há gente que não sente assim, é porque morreu antes de nascer.»

documentário “José e Pilar”, de Miguel Gonçalves Mendes